As cartas de outrora
As memórias têm vida própria e resolvem aparecer quando lhe bem apetecem.
Lembrei-me das cartas que escrevia para a minha tia, para
ela enviar a uma amiga, nos anos 90.
O meu primo, filho da minha tia-avó, com idade para ser meu
pai, tinha tido pelos vistos um romance com uma senhora do norte, a D. G., mas
ele faleceu novo, com quarenta e poucos anos, era eu uma criança.
Lembro-me dele me tratar por "piruças" e
oferecer-me um coelho cor de rosa. Tinha uma afeição grande por mim, gostava de
mim como se fosse sua filha. Ele já tinha duas filhas mais velhas do que eu, do
seu primeiro casamento, e que só via esporadicamente, dado o relacionamento com
a mãe das crianças ser conturbado.
Era um homem do Ultramar. Tinhas os seus problemas
psicológicos, mas pareceu-me que encontrou luz quando, alguns anos após o
divórcio, conheceu a D.G..
Entretanto adoeceu e faleceu.
A minha tia ficou com estima por esta senhora, pois
conheceu-a e começou a receber cartas da D.G.
Ora a minha tia não sabia ler, nem escrever. Valia-lhe esta
pequena criança, que morava ali perto, e lia-lhe a cartas. Então ela
lembrou-se: "Tu, April, é que me podias ajudar a responder à D.G."
Ao que respondi com prontidão. Lá foi ela comprar papel e
envelopes. As cartas eram um branco amarelado, com linhas muito pretas marcadas
e no topo da página, em diagonal, uma faixa preta, de luto. Sempre foram assim
as cartas, tiradas de um bloco que a minha tia tinha comprado e sempre de luto
pela perda do estimado filho.
E trocavam assim correspondência. Trocavam os sentimentos
por um homem que partiu, uma como mãe, a outra como mulher apaixonada. Uma com
desejo de ser sogra, a outra com desejo de ser nora. Ora como amigas, ora como
companheiras de solidão. Era uma amizade bonita.
Acho que era a linha ténue, que elas encontraram, para
manter vivo o meu primo.
E esta miúda, lia as cartas e respondia com o que a tia
queria e como queria. Já mais velha, ajudava a dar uns retoques com autorização
da minha tia, claro.
Era um mundo invisível. Nunca conheci a D.G., só por
fotografia que a minha tia me mostrou, mas viveu sempre no meu imaginário esta
senhora e em como gostaria de a ter por prima. Nalgumas cartas agradeceu-me por
ajudar a ser correspondente e desejava-me boa sorte para os estudos.
Entretanto fui crescendo e as cartas foram parando. Mas
ainda foram uns longos anos de trocas de cartas.
A minha tia também já não está entre nós e nunca mais fiquei
a saber da dita senhora e já nem me lembro da morada, nem do local.
São velhas memórias, que já nem me lembrava, e resolveram
visitar-me.
Por isso sinto saudades de escrever cartas. Tenho saudades
da espera, do abrir, do ler e guardar, de olhar para o selo, da magia de
colocar no marco do correio vermelho.
Hoje um sms resolve tudo muito rapidamente, mas não tem
aquele encanto de outrora.
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