Sentada na beira da cama, a Paciência
A paciência é uma faca de dois gumes. Saber escolhê-la para não vivermos em ansiedade, acolhermos a espera, o vazio dos acontecimentos, o ecrã desligado, a noite escura, a ausência de vida.
A paciência é morada de nada. Nela não existe nada. Não há
resultados, não há alegria, não há tristeza, só respirar fundo e esperar, ter
esperança por dias melhores. E aqui entra o outro gume, para além da paciência
ser espera, ela é resiliência, a esperança por dias melhores.
Se vão acontecer? Não sabemos.
Quando vão acontecer? Não sabemos.
Como vai acontecer? Também não sabemos.
E o vazio bate duro contra a alma, a escuridão cai sobre a
mente e a espera adensa-se como líquido viscoso que nos entope a respiração e
não nos deixa levantar. E uma corda invisível começa a estrangular e a
ansiedade afinal toma conta. E a paciência desvanece.
Agora tudo é tormenta, tempestade, agitação e céu nubloso.
O frio instala-se, o corpo dormente e a profundidade de
sentimentos acontece.
A ansiedade esgueirou-se, invadiu o que era da paciência.
E a paciência quer lutar, por que nela reside a calma, a
alma, a esperança.
A luta é feia entre as duas. Só a paciência sangra, a outra
não tem pinta de sangue que lhe corra nas veias, só sabe retirar o sangue das
vítimas, como de um vampiro se tratasse.
E elas digladeiam-se no chão. Mordem-se mutuamente, puxam
membros e desferem golpes, um atrás do outro.
Ouve-se um grito final...
Nenhuma ganhou, a mente entrou num sono profundo e o sonho
voltou.
E agora não há paciência, nem ansiedade. Foram vencidas
pelos sonhos, pelo brilho da manhã, pelo reverberar do canto dos pássaros, por
um novo dia.
E quando damos conta, lá está ela, sentada na beira da cama,
a Paciência.
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