Quem eu era e quem eu sou

Noites de verão fazem lembrar-me aquelas férias, nos tempos da faculdade, rodeada de amigos na praia. Aliás, fazíamos ainda mais outros tantos amigos nas férias. Saíamos. Descontraídos.

As raparigas protegidas pelos rapazes do grupo.

Um flirt ou outro, de um rapaz do grupo para uma rapariga do mesmo grupo.

Eram tempos leves.

As noites passadas nas festas da vila e o dia na praia com os amigos. Até a chover íamos para a praia e eram os melhores mergulhos de sempre.

Sim, era mesmo tudo muito leve.

Não existiam contas para pagar. Ninguém ainda tinha filhos e preocupações financeiras.

Ninguém tinha sogros e sogras.

Ninguém tinha cunhados e cunhadas.

Eram os namoricos de verão.

Tudo leve, sem maldade, sem lamentos, sem destinos apressados ou marcados.

Cabeças cheias de sonhos do futuro.

O coração cheio de esperança.

A vida era tão doce, que parecia uma bolha de sabão colorida.

Mas a bolha foi devanecendo, todos se foram afastando, o inverno trouxe namorados e namoradas à séria, casamentos, filhos, profissões, carreiras, responsabilidades, demasiadas, e tudo ficou de repente pesado.

Tudo escureceu.

O navio que atracava naquela praia, foi embora e nunca mais voltou. 

Um barco chamado juventude.

Agora todos na casa dos 40, com rugas, dois ou três números da roupa acima, cabelos brancos, cansados da vida que se leva, desiludidos com o futuro profissional ou até emocional.

Desiludidos pelos sonhos que se foram e não voltam.

Desiludidos com o destino traçado que antes era sem pressa.

Apenas nos restam as noites quentes de verão, onde se fecham os olhos, inspira-se fundo e consegue-se ouvir aquela música maluca no ar, os corpos agitados, os sonhos outra vez voltam e somos leves novamente. O sangue pulsa, aquece o corpo, estamos vivos novamente.

Voltamos a ter o coração leve. O corpo leve e com energia.

A mente despreocupada.

Até o perfume é possível sentir.

Quem sou eu agora? A menina, ou a mulher? 

Não quero despertar desta memória.

Quero ela presente em mim.

Quero levá-la a todo o lado.

Senti-la.

Cheirá-la.

Vivê-la.

Viver tudo de novo.

Quem eu era?

Quem quero ser?

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Alguém que escreve umas coisas, por que sempre adorou escrever. Alguém que em criança adorava gravar cassetes a fingir que era uma locutora de rádio. Alguém que sempre adorou o mundo da música e seguiu um mundo completamente diferente.

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