Quem sou eu no meio disto tudo?
Às vezes sinto que o tempo parou para mim.
Que o tempo avançou para todos à minha volta, mas para mim?
Raios! Parou.
Às vezes sinto que não construi nada, não avancei na vida.
Não cresci profissionalmente, continuo na mesma, não cresci
a nível familiar, aliás perdi mais pessoas do que as que ganhei.
Perdi amigos, não porque passassem para outro lado, mas
porque me deixaram de falar.
Às vezes penso nisto e entristece-me. Quando sei que não fiz
nada, apenas estava a tentar ser feliz.
Quem diria que arranjar namorado era sinónimo de desprezo de
ditas "amigas".
Quem diria que ter um problema psicológico (princípio de
burnout) me iria marginalizar perante alguns familiares.
Quem diria que ter muita formação e inteligência me fizesse
caber menos em determinados sítios, porque parece que me tornei inalcansável.
Quem diria que eu tinha de ser perfeita, quando todos à
minha volta são tão imperfeitos como eu.
Há dias que se pensa tudo mal e ao contrário sobre nós. Hoje
é o dia.
Pensar que estarei a ficar burra, quando sei que sou
inteligente.
Pensar que estarei a ficar velha, quando ainda sou nova.
Duvidar das minhas capacidades, quando na prática até sou
bem melhor do que algumas pessoas a trabalhar ao meu lado.
Uma dualidade angustiante.
Queria fazer reset ao pc, chamado cérebro e ser menos
autosabotante.
Parar de pensar, porquê eu? E parar também com: e porque não
eu? Acho que esta última é pior como pergunta. A sabotagem psicológica é maior.
Deveria ser proibido pensarmos à noite. Estamos cansados,
vemos tudo negro, tudo é mau.
E só me lembro do dia de hoje, dos sorrisos, da nostalgia,
de passar pela minha antiga escola secundária e pelo meu bairro antigo e
pensar: "Quem diria naquilo que me tornei?" E senti-me grande,
orgulhosa de mim.
E afinal cresci, e afinal avancei e afinal sou alguém.
Mas o tempo passou, deixou feridas, deixou amarguras.
E deixou boas memórias e deixou tempos que queria voltar
atrás.
Hoje será um dia que gostaria de rebobinar e voltar atrás.
E as lágrimas aparecem, porque parece que afinal fiz coisas
boas. Fiz coisas que valessem a pena.
A vida só não me recompensou como eu merecia, na medida do
meu olhar e da minha perspetiva.
Bolas! Porquê Eu?
E salta outro pensamento que salta tantas vezes.
Se não te tivesse acontecido o que aconteceu, não tinhas
vindo até aqui. Tão longe. Tão vinda do inferno, para saber como tocar o céu
por breves instantes.
E o tempo continua a esvair-se na clepsidra da vida. Gota a
gota.
E penso? Será que terei tempo para tudo na minha vida.
Ainda tenho tantas coisas por fazer, tantos sonhos por
cumprir, tantos abraços para sentir, tantos projetos para lançar, tantos olhos
para olhar.
Já não sou magrinha e delgada como antes. As rugas teimam em
espreitar. Os cabelos brancos despontam como cearas ao vento.
E as lágrimas continuam a querer debulhar-se e degladiar-se
por mais uma queda sem fim.
Eu não mereço o que me aconteceu. Porquê a mim?
E porque não a mim? Que descobri que sou forte nas estucadas
da vida que me empurram contra uma parede.
Este semana foi sem dúvida o pensar de: podes bater-me com
força vida, não vou cair. Vou estremecer com o embate, mas não caio.
E dentro de mim salta o pensamento: "Bolas, quero rolar
no chão e chorar até perder as forças e adormecer"
E a minha armadura ergue-se e diz: Bolas miúda! Tu és mais
que isso. Já viste todas as porcarias que já passaste? Toda a maldade humana
que já passou por ti.
E hoje, sem saber como, dei por mim a pensar: "Que se
lixe tudo. Hoje sou feliz e só quero aproveitar isso." Hoje valeu a pena o
dia. Eu lutei muito para chegar a este dia orgulhosa de mim. Mesmo que
ninguém (Ministério) valorize quem eu sou. Hoje valeu a pena por tudo.
Hoje senti-me abraçada pelos sorrisos dos que toco todos os dias. Hoje fui mais
além. Fui à memória do que vai ficar eterno. Vi o amor acontecer perante os
meus olhos.
Hoje vi que há coisas que nenhuma maldade do mundo me pode
tirar.
Hoje percebi que a única pessoa que me pode diminuir sou eu
mesma, mesmo que muitos tentem fazê-lo para me boicotar.
Eu nunca quis acreditar que a maldade gratuita existia. Mas
ela existe.
Hoje uma pequena mensagem mudou por 5 minutos a minha
disposição e depois não deixei mais que isso me afetasse. Eu estava acompanhada
de pessoas fantásticas, o dia estava a ser tão bom, tão sem preocupações, que
seria injusto que deixasse que uma mensagem me pudesse afetar.
Viver assim em questionamento interno é duro. Porque não
avancei aos meus olhos. Mas aos olhos dos outros eu avancei e muito.
É bizarro, curioso e engraçado como a nossa mente constrói
realidades que não são tão reais assim.
Afinal quem sou eu no meio desta confusão?
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